Um conflito que parecia improvável, mas já está em plena exibição: TV Globo vs. Fernando Collor de Mello
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Durante décadas, a TV Globo manteve com o grupo de Fernando Collor de Mello uma das mais estáveis parcerias da radiodifusão no Nordeste — especificamente no Estado de Alagoas. Toda essa estabilidade, porém, se transformou em embate jurídico, institucional e político
Origem da aliança
O ponto de partida dessa relação está no contrato de afiliação entre a Globo e a TV Gazeta de Alagoas, emissora controlada pelo grupo de Fernando Collor (por meio das Organizações Arnon de Mello). O vínculo remonta a meados dos anos 1970, e se estendeu por quase cinco décadas.
Para Collor, possuir uma afiliada da rede de maior audiência do país – a Globo – significava visibilidade, influência cultural e política local reforçada. Para a Globo, ter cobertura robusta no Nordeste, em especial em Alagoas, era estratégico em termos de alcance e mercado.
Essa simbiose, no entanto, já continha tensões latentes: o controle local, disputas regionais, o peso de uma grande rede nacional e a necessidade de que a afiliada mantivesse padrões “aceitáveis” para a programação nacional.
A virada: de aliados a adversários
Motivos da ruptura
Por volta de 2023-2024, a Globo iniciou uma articulação para não renovar o contrato com a TV Gazeta. Os principais argumentos apresentados foram:
- Alegações de que a TV Gazeta estava envolvida em irregularidades, inclusive vinculadas a esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro que envolvem Fernando Collor e executivos da emissora.
- A Globo sustentou que manter uma afiliada com esse perfil acabava comprometendo sua imagem, autonomia editorial e “qualidade” do serviço de radiodifusão.
- A iniciativa da Globo de já ter firmado (ou firmado intenção) novo contrato com a TV Asa Branca — emissora de Caruaru (Pernambuco) que passaria a cobrir Alagoas — indicava que a Globo queria uma nova base de afiliação na região.
Reação da TV Gazeta e do grupo Collor
- A TV Gazeta entrou em recuperação judicial desde 2019, o que já gerava uma situação de fragilidade.
- A emissora argumentou na Justiça que o contrato com a Globo representava 100% (ou quase) de sua receita de transmissão, e que a retirada da afiliação equivaleria à falência da empresa, demissão em massa e impacto social local.
- Buscou decisões judiciais para obrigar a Globo a renovar o contrato por mais cinco anos a partir de janeiro de 2024. A Justiça de Alagoas concedeu liminar e manteve a obrigatoriedade da renovação.
O nó jurídico e as decisões recentes
- Em 2024 a disputa chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A Globo alegou lesão à ordem pública e à liberdade contratual, argumentando que a renovação forçada da afiliada era abusiva.
- A decisão mais recente informa que o STF autorizou a Globo a encerrar o contrato com a TV Gazeta em Alagoas, abrindo caminho para que a Globo troque de afiliada no estado.
- Apesar disso, outras decisões em instâncias inferiores mantinham a obrigatoriedade da renovação por mais cinco anos a partir de janeiro de 2024. A decisão final parece ainda não estar completamente pacificada, e há recursos em andamento.
O fator regional: mudança de afiliada em Alagoas
Com a Globo querendo se desligar da TV Gazeta, ela já teria firmado acordo com a TV Asa Branca (de Pernambuco) para assumir a retransmissão em Alagoas, o que configura uma mudança estratégica significativa no mapa das afiliadas da Globo na região.
Esse movimento provoca várias consequências: a mudança de “bandeira” em Alagoas, o deslocamento de renda e poder midiático, e o enfraquecimento político e econômico do grupo de Collor no estado.
A peça de mídia: a série documental da Globo
Mais recentemente, a Globo (via sua plataforma de streaming Globoplay) lançou a série documental Caçador de Marajás, em sete episódios, que retrata a trajetória de Fernando Collor — da ascensão como “caçador de marajás” ao governo federal e ao impeachment.
Curiosamente, o lançamento da série ocorre em paralelo ao processo jurídico de rompimento entre Globo e afiliada de Collor, o que suscita reflexões sobre o papel da mídia, da narrativa e do poder. Trata-se de um tema que vai além do contrato: toca em imagem pública, no julgamento da opinião pública e na história política brasileira.
Interpretações e implicações
- Poder midiático versus poder político: A disputa expõe como um grande grupo de mídia nacional (Globo) pode reavaliar alianças regionais quando entende que os riscos reputacionais ou institucionais superam os benefícios locais.
- Autonomia editorial e contratual: A Globo argumenta que manter afiliação com uma emissora ligada a pessoas condenadas coloca em risco sua credibilidade e competência de escolher parceiros.
- Impacto local: Em Alagoas, a troca de afiliada significa mudança de investimentos, empregos e visibilidade. O grupo Collor perde um ativo estratégico na comunicação.
- Narrativas e legado: A série documental sobre Collor reforça que a mídia não apenas transmite fatos, mas molda narrativas, e que esse papel está relacionado ao momento político-institucional.
- Precedentes jurídicos: A eventual decisão favorável à Globo poderá servir de parâmetro para outros contratos de afiliadas de redes nacionais em que existam vínculos questionáveis ou disputados.

Foto: Divulgação
O que parecia um contrato tranquilo, de longa data e sem grandes sobressaltos, transformou-se em um campo de batalha. A aliança entre a Globo e o grupo de Fernando Collor passou de simbiótica a conflituosa — com implicações jurídicas, midiáticas, políticas e regionais.
A “guerra” não é apenas financeira ou contratual: é simbólica. Marca uma ruptura de alianças históricas, e indica que nenhuma parceria — mesmo de décadas — é imune às mudanças de cenário, de reputação ou de poder. O observador atento deve acompanhar agora:
- Qual será a decisão final da Justiça sobre o rompimento/renovação do contrato da afiliada em Alagoas;
- Como ficará a presença da Globo no estado, e como se reorganizará o grupo local de Collor;
- Qual será o impacto da série documental “Caçador de Marajás” na opinião pública local e nacional;
- Que precedentes esse caso poderá gerar no setor de radiodifusão brasileira.
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